Ainda na tentativa de aprimorar o senso crítico, volto a me referir à coluna de Marcelo Gleiser, de 13-02-2011, da Folha de São Paulo. Lá ele diz que "a ciência cria conhecimento por meio de um processo de tentativa e erro, baseado na verificação constante por grupos distintos que realizam experimentos para comprovar ou não as várias hipóteses propostas".
Baseando-nos nessa asserção (sem endossá-la totalmente), podemos perguntar quais foram os experimentos verificados por grupos distintos que comprovam a origem do homem? Já não falo aqui da origem da vida na Terra, mas do surgimento do próprio homem. Com toda a probabilidade somos resultado da evolução de alguma outra espécie, mas isso seguramente nunca foi comprovado por experimento nenhum. Logo, segundo Gleiser, não poderia ser tido como ciência comprovada, ao contrário do que ele afirmou linhas acima, o que dá margem a outras hipóteses e não ficamos amarrados a um "dogma científico" indiscutível.
Na verdade, o conceito ciência tem duas acepções distintas, ainda que complementares. Temos pois a ciência descritiva e a ciência explicativa. Aquela simplesmente descreve seres e fenômenos, com base na observação da realidade, sem a preocupação de saber suas origens ou as relações causais que explicam suas existências. A ciência explicativa, o próprio nome está dizendo, tem por objetivo entender porque um evento se segue a outro, quais são as forças que participam dos diversos fenômenos, num processo interativo.
Sob este ponto de vista, a origem da vida na Terra e a origem da humanidade não podem ser objeto de ciência descritiva, pois foram eventos que obviamente a nenhum humano foi dado observar. Quanto à ciência explicativa, também encontramos embaraços insuperáveis para usá-la com relação àquelas origens, pois não temos conhecimento das condições da época em que ocorreram. A pergunta sobre que forças podem ter atuado para produzir aqueles resultados fica sem resposta pela nossa total ignorância.
Querer simular aquelas condições, como muitos imaginam, é uma pretensão de ficção científica, pois para qualquer ambiente que criemos falta-nos o elemento de comparação que nos permita afirmarmos sua correspondência. É como tentar fazer o retrato falado de alguém que já morreu, sem ter nenhuma foto ou descrição de suas feições.
Restaria apenas a possibilidade de produzirmos agora a vida, a partir de matéria inorgânica, e um ser humano usando material genético rigorosamente não-humano. Quando e se conseguirmos isso, só então poderemos declarar que estamos fazendo ciência, na suposição de que as leis da natureza são imutáveis e o que acontece agora, deve ter acontecido no passado e permanecerá acontecendo no futuro. Até lá, essas origens não pertencem a nenhum ramo da ciência, a não ser a ciência especulativa, que, por meios puramente racionais, pode talvez dizer alguma coisa. E o debate pode muito bem propiciar luzes, sem serem embargadas por nenhum dogma, inclusive o dogma científico.
Voltarei a tratar do assunto daqui a alguns dias.
autor:Renato Benevides

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